Para quem não está familiarizado com o termo esta é uma tática política que é associada à guerra fria, à União Soviética e, mais recentemente, a Donald Trump. Mas depois de explicada verão que está mais presente nas nossas vidas do que se calhar pensavam e que todos, ou quase todos, têm por vezes a tentação de utilizar tal tática.

Hoje vou tentar explicar no contexto do país, de Sintra e até da nossa freguesia e deixar algumas questões que, julgo eu, até poderão ser pertinentes.

O whataboutismo é, simplesmente explicado, quando alguém perante uma crítica não tem argumentos e tenta então mudar o sujeito objeto da crítica dizendo algo como “ah e então vocês quando…” ou “ah então e aquilo que tu fizeste…” ou o mais simplesmente e infantil “quem o diz é quem o é”.

Vejamos por exemplo a App Stay Away COVID. Primeiro dizer que já tenho instalada a app há muito e que a questão não é a app em si, é a obrigação e a grave ingerência nos direitos e liberdades individuais. Perante a questão da proteção de dados, e sabendo que a app requer várias coisas como a fundamental ativação da localização, os whataboutistas invocaram outras app, como as redes sociais, para dizer que as pessoas aí já não se importavam. Pois bem, a questão é que ninguém é obrigado a ter as app e, muito menos, a ativar os serviços de localização. O problema é que se nenhuma autoridade me irá perguntar se eu tenho whatsapp ou Twitter ou Facebook, pedir para ver um objeto privado, com informações pessoais para verificar e autuar se eu não as tiver. E isso é simplesmente inaceitável e mais uma grave limitação dos direitos individuais de cada um de nós ao abrigo de uma pandemia e de uma justificação que se preocupa com reuniões familiares mas permite comícios, que tem vários pesos e várias medidas mas onde a prioridade é limitar direitos de expressão individual, invocar interesse nacional para controlar danos políticos.

É kafkiano a surrealidade em que vivemos onde é fácil de morrer de qualquer outra doença por falhas graves do SNS e a saúde de milhões adiada porque não têm COVID e apenas um simples cancro ou problemas cardio-vasculares. Assistimos a recados e apelos à responsabilidade individual quando as entidades responsáveis a nível nacional e local sacodem a água do capote perante dizendo, imagine-se que 67% das infeções têm origem em casa como se o vírus nascesse nas paredes ou nos móveis ou lençóis e não porque as pessoas dessa casa têm que viajar em transportes sobre lotados, trabalhar ou ir para as escolas por vezes sem condições de proteção adequada ou por tantas outras razões que não são objeto de investimento, controlo, medidas de prevenção e tantos, mas tantos que nem sequer são testados apesar de terem estado em contacto com eventuais infetados.

Não. É mais fácil o whataboutismo reinante chamando-nos a todos irresponsáveis quando em Março, antes das imposições, nos recolhemos e fomos exemplo; é mais fácil dizer que a culpa é de todos nós quando os sinais que se transmitem são de irresponsabilidade de quem nos governa permitindo Avantes, permitindo espetáculos tauromáquicos cheios, manipulando os números reduzindo a quantidade de novos testados realizados para que não faltasse praia aos turistas. E a curva lá continuava achatada e controlada. Mas a culpa agora é do povo e os hospitais continuam com as mesmas condições e o SNS continua dedicado a uma pandemia. É o whataboutismo em todo o seu explendor.

E por aqui, em Sintra e em Massamá e Monte Abraão, continuamos sem perceber muito bem o que foi feito para prevenir, minorar o que agora estamos a viver. E não percebemos porque não sabemos para onde foram os milhões propagandeados para IPSS (quem os recebeu, quais os critérios) ou para o hospital FF onde agora se falava numa tenda.

E aqueles que defendem agora, contra a opinião de especialistas e virulogistas, que estavam certos ao não terem dado os números de Sintra (hospitalizado, óbitos, testes e novos testados) e de cada freguesia porque, valha-me Deus, era necessário proteger a privacidade apesar do anonimato dos números, são os primeiros e os mesmos que agora tentam defender a obrigação de instalarmos uma app que requer dados como a localização e onde, se eu estiver com uma única pessoa, num único local e a app me alertar eu saberei exatamente que essa pessoa teve COVID. E para isso, lá está, recorrem ao whataboutismo comparando com às redes sociais e com a liberdade de escolha que temos em instalar, utilizar, ceder dados ou não.

E disse bem: teve!! Porque só aqueles que acusarem positivo terão um código para inserir e, nessa altura, ficarão em isolamento, em casa, até serem considerados curados e, portanto, livres do vírus podendo, então sim, regressar à vida normal. Logo, a app só nos informará de quem já está curado e não de quem tem o vírus ativo. Além disso, se a pessoa em isolamento quiser sair e não quiser ser apanhada pela app, basta deixar o telemóvel em casa e se for abordado pelas autoridades dizer que não tem telemóvel.

Porque a app não serve para nada a não ser vigiar a população e permitir a invasão de privacidade se e quando for aprovada a obrigação e as autoridades poderem vasculhar um objeto pessoal como o telemóvel.

Por aqui a cartilha recorrente quando se crítica a péssima gestão dos executivos municipal e de freguesia com factos é o whataboutismo: “ahh e os outros aqui ao lado” ou “ahh e o que fizeram ou não fizeram os outros há vinte anos atrás” ou ainda “então e as pessoas que são porcas”.

Está na hora de condenar o whataboutismo e lutar contra a surrealidade kafkiana que nos tenta impor cenários que já Orwell descrevia nas suas obras maiores, não permitindo que o Big Brother nos vigie nem que nesta Animal Farm os triunfantes “porcos” continuem a praticar o seu lema de que todos os animais são iguais mas há uns que são mais iguais que os outros.

Pensem nisso!!

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