Sabem filhos,

Cheguei à conclusão que a natureza não é perfeita. A vida está mal pensada. Senão vejamos: Tudo começa num orgasmo, coisa sublime como a seu tempo (sem pressas, ouviram!) descobrirão. Em seguida, vem um período em que nada fazemos senão comer e dormir. Nem precisamos de nos preocupar com necessidades fisiológicas. Até para nos deslocarmos não fazemos qualquer esforço – há sempre alguém para nos pegar ao colo. Somos sempre o alvo de todas as atenções e qualquer gracinha nossa tem piada. Mais tarde, começamos a aprender novas coisas, como falar ou andar. Novas e importantes responsabilidades surgem no horizonte, como avisar que estamos à “mijinha para rascar”. Nesta fase ainda nos acham imensa graça. Vem a escola e, com ela, mais e maiores descobertas e amizades. Aqui as responsabilidades e preocupações começam a emergir. Fazer contas, escrever, enfim, coisas complicadas mas ainda algo divertidas.

Depois filhos,

Depois surge uma coisa muito complicada de gerir, quer por quem a vive (todos nós passamos por ela) como por quem a tenta compreender. A graça desaparece e a coisa torna-se séria com a adolescência. São os namorados, as roupas, as amigas e amigos, a adolescência, enfim, um sem número de dilemas existencialistas que nós, os pais, julgamos enfrentar sempre com muito diálogo mas, mais tarde ou mais cedo, percebemos que a linguagem que os filhos falam já não é a mesma e, como tal, a comunicação torna-se inacessível. Com um bocado de sorte, esta fase dará lugar a um ser esclarecido, estudante de uma qualquer universidade, prestes a entrar no mundo do trabalho. SORTE? E as noitadas, e as discotecas e o sexo (é melhor nem falar disso, meus filhos), e os exames e o “Oh, pai emprestas-me o VISA”. Afinal, a preocupação continua e mais ainda, no fim da faculdade, com a procura do primeiro emprego. Com muita felicidade, consegue-se um bom emprego. Ao fim de algum tempo, o casamento, os filhos e ainda mais trabalho. Para nós, os paizinhos, agora promovidos a avós, são momentos de grande alegria. Finalmente, os filhos casaram e o genro e a nora até nem são uns marmanjolas, tiveram filhos lindos, é tudo tão perfeito.

Pois é filhotes!

Nada é perfeito. A partir daqui a coisa complica-se e volta tudo ao princípio.

Como? Então, o papá e a mamã começam a ficar velhos e em vez de aprendermos, como em bebés, começam a desaprender de falar, de andar e os bebés passam à fase final da metamorfose transformando-se em gagás. Aí, voltam a precisar de alguém que tome conta deles e lhes dê banho. Coisa que perde toda e qualquer piada. É a humilhação total. E, por fim, chega a hora e tudo termina na maior das tristezas .

Ora, digam-me lá filhos,

Não era melhor se tudo fosse ao contrário? Sim, ao contrário! No início, tínhamos as dores e éramos gagás. Depois íamos ganhando forças e começávamos a trabalhar devagarinho. Mais tarde, no auge das forças casávamos e tínhamos filhos. Assim, uns anos depois, quando eles estivessem a trabalhar, deixávamos o trabalho e íamos para a faculdade estudar e começávamos a sair à noite. Por fim, arranjávamos namoros e voltávamos a ser engraçados, como os bebés, terminando tudo numa enorme noite de sexo com um inesquecível orgasmo repleto de alegria e felicidade.

Era ou não era tudo mais perfeito, filhos?

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