Este projeto começa com a recuperação de algumas coisas que escrevi em tempos e que apenas adaptei para ultrapassar os anacronismos provocados pelo tempo que passou. Este é o primeiro.

Olá meus filhos,

Desculpem tão demorada ausência, mas a atividade profissional e paternal sobrepôs-se, quase sempre, à de pseudo-escritor. Não quero contudo deixar-vos sem uma herança e por isso continuarei, sempre que possa, a vir aqui, ao nosso ponto de encontro, falar convosco sobre tudo o que nos apetecer. Não tenho matutado muito sobre temas de conversa e por isso resolvi falar de amigos. Sim, porque os amigos são a melhor coisa do mundo. Serão?

Depende filhotes.

Depende do tipo de amigo. Temos os “amiguinhos”, os “amigos para as ocasiões”, os “amigos da onça”, “amigos dos amigos”, os “amigalhaços”, “amigos do alheio” e os “simplesmente amigos”. Existirão, por certo, muitos outros tipos de amigos mas, para já vamos falar sobre esta tipificação muito minha.

Em breve meus principes,

Irão começar a perceber isto e a ter “amiguinhos”. Esta é a forma primitiva de amizade e a introdução à vida social. Os “amiguinhos”. têm todas as características dos restantes formatos de amigo. Fazem-nos rir e chorar, dão-nos beijinhos e batem-nos, dão-nos muito mas também nos gamam os brinquedos, são, no fundo, o molde tosco dos diferentes tipos de amigos. Tosco porque não refinaram ainda as suas ações, ou seja, não premeditam aquilo que fazem. Mais tarde, perceberão que todos esses “amiguinhos” se transformam, gradualmente, num ou em vários tipos de amigos. Alguns, devido ao cocktail genético-social que formata a sua personalidade, transformar-se-ão em “amigos do alheio” e continuarão, vida fora, a fanar os brinquedos ao pessoal. Os carros, as joias, a aparelhagem, a carteira, enfim, aquelas coisas com que o Pai e a Mãe gostam ou gostariam de brincar. Lá está, refinaram-se e agora já só sabem brincar com as coisas dos outros.

Já sabem meninos,

Os “amigos do alheio” não interessam. Nem eles nem “os amigos da onça”. Esta sub-espécie tem inúmeros habitats e alimenta-se da falsidade. Sabem, como ninguém, camuflar-se passando despercebidos, por entre a vegetação de diferentes amigos, esperando a hora de atacar. Quando estamos desprotegidos, “os amigos da onça” atacam ferozmente, aproveitando a oportunidade, mordendo onde mais dói, deixando a sua marca e afastando-se após terem conseguido o objetivo a que se propuseram. Esse objetivo pode ser material ou meramente psicológico.

Por isso meus amores,

Tenham sempre os olhos bem abertos, e olhem com muita atenção para os arbustos que te rodeiam, de forma a poderes detectar algum movimento fortuito. Esses momentos de distração e fraqueza, em que estamos a descoberto, chamam-se ocasiões e para isso existe uma frase que qualifica um outro sub-género de amigos: “amigos para as ocasiões”. Este sub-género tem várias conotações. Umas boas, outras nem por isso e outras detestáveis. Os bons “amigos para as ocasiões” são os que estão conosco em todas as ocasiões sejam elas más ou boas. Sim, porque nós não devemos ter amigos só quando estamos em baixo. Devemos partilhar também as boas ocasiões, deles e nossas. Assim o mereçam. Os “amigos para as ocasiões” assim-assim, são aqueles que só aparecem nos funerais, que choram muito, que quando estamos por baixo nos dão palmadinhas nas costas. Para quê? palmadinhas nas costas? Será para sacudir a caspa? Que raio de espécie vampirina é esta que se alimenta das lágrimas dos outros e julga que amizade é feita de clichés e sacudidelas de pó? Mas pronto… não é mau de todo. Mau mesmo são “amigos para as ocasiões” boas. Estranho, mas verdade. Porque são aqueles amigos que só aparecem nas boas ocasiões (Casamentos, Batizados, quando somos promovidos, quando acertamos no totoloto…) com o pensamento no proveito próprio. Seja esse proveito encher o bandulho ou cravar algum. Estes são verdadeiros abutres da prosperidade alheia. Andam sempre por outras paragens mas quando lhes cheira a felicidade, aí estão eles prontos a dar umas bicadas e a obter o seu quinhão de bife do lombo.

Como vêem queridos,

Esta coisa dos amigos é muito complicada. Avancemos para os “amigalhaços”. Como o nome indica esta espécie nasceu do cruzamento de um amigo com um palhaço de circo. É aquele tipo de amigo que não faz mal a ninguém, atua para diversos públicos e diverte como ninguém. Parece bom mas… mas nem por isso. Apesar de ser inofensivo, usa uma máscara como os palhaços e nunca chegamos a saber bem quem ele é. É muito popular, toda a gente o conhece, mas nunca se pode contar com ele para algo mais que não seja o convívio. Os “amigalhaços” surgem na nossa vida muitas vezes, como um “amigo de um amigo”. Esta é uma sub-espécie misteriosa e mutante. Porque quase nunca se conhece e na maior parte das vezes nem existe, senão como tema de conversa, e porque sofre diferentes metamorfoses quando, existindo realmente, nós os conhecemos pessoalmente. Nesta altura e, consoante os casos, transformar-se-á, ao longo do tempo numa qualquer outra espécie de amigo. Maioritariamente, passa a ser designado como um conhecido.

Pois é meus amores,

Muito mais se poderia dizer sobre muitos outros géneros e castas de amigos como os “Amigos imaginários”, que são os melhores porque são idealizados por nós (pena é não serem reais e pagarem as contas) ou os “Com amigos assim…” que nos fazem tão bem, tão bem… que o melhor é ter inimigos.

O quê? Ah! O que é, na verdade, um Amigo?

Um Amigo filhos,

É aquele que aceita as nossas virtudes mas também todos os nossos defeitos de forma honesta e sincera. Um amigo é, simplesmente, aquele que se limita a sê-lo e não aquele que diz que é. Ou ainda, como ouvi recentemente: “O grande amigo não é aquele que separa a briga, mas sim aquele que ajuda”. Sinceramente, Não vos posso dizer o que é um amigo porque todos temos padrões diferentes e só cada um, individualmente, sabe e sente qual a verdadeira amizade.

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