
De um poema de Ruy Belo
Tenho sido um mero observador e, na altura devida, uma eleitor consciente do que fazia quando exerci os meus direitos.
Sobre tudo o que se passou durante a campanha e no período que mediou entre as eleições e o dia de hoje, pautei a minha postura pela sobriedade e seriedade evitando posições extremadas, caciquistas ou, sobretudo, impensadas ou inconseguidas, neologismo que entrou de rompante pelo nosso léxico sem sequer pedir licença.
E é este neologismo que marcou todo o processo eleitoral que, aparentemente, deixa o país à mercê de um turbilhão de reuniões, audiências, declarações e todo um jogo de poder que em nada dignificam aquilo que se pretende de uma democracia.
Cavaco igual a si próprio, Passos menorizado e indigitado a prazo, Costa a dançar a conga com mestria no jogo de cintura nos ondulantes movimentos à esquerda, Portas reduzido à sua insignificância sem a magistratura de influência que nunca deveria ter tido, Catarina a subir ao palco mediático e a prevalecer na força que Portas deixou de ter e, Jerónimo, o eterno papão, vitima de um rótulo ideológico que parece, agora, só existir no PCP porque, no resto, Democracia cristã esfumou-se, Social-democracia volatizou-se, Socialismo escondeu-se e Trotski já não é bem o que era… Tudo o mais é a Natureza e os Animais!
Hoje sabemos também que, na luta de cadeiras, ou mais em moda, na luta de tachos deste masterchef à portuguesa, a primeira receita na Assembleia foi imposta a Ferro! Caso para dizer que a caldeirada ainda vai a meio.
E Portugal? E a Republica ou, etimologicamente, a Res Publica? E a ainda jovem Democracia?
É que, de há meses para cá, muitos li, ouvi, vi, escutei, ignorei ou registei. Na formatada telvisão, no anarca facebook, na dúbia imprensa, no imediato facebook… Comentadores, opinadores, escritores, assalariados, jornalistas, analistas, conhecidos e anónimos, figuras e figurões, foram tantos os que, como eu agora, se pronunciaram em nome da sua pessoa, do seu interesse, da sua verdade, mas poucos, muito poucos ou quase nenhuns, em nome deste país, dos portugueses que, como alguém com responsabilidades, há tempos dizia, não estão tão bem como Portugal está.
Mas Portugal não está bem!!
Portugal precisa de cultura democrática. De quem elege e de quem é eleito.
Não se trata do que o Presidente de uma Republica, que no aniversário da sua implementação primou pela ausência, faz. Porque, em última instância ou análise, a sua interpretação da Constituição e do seu texto é válida uma vez que o elegemos para o fazer.
Trata-se, isso sim, do exercício responsável e do espirito de missão e de serviço público a que todos estamos obrigados quando os assumimos, pondo de lado amizades, conveniências ou partidismos cegos.
O que temos assistido na praça pública é um braço de ferro que se olvidou de todos nós e deste país. São decisões que colocam todas as nossas vidas e Portugal num regime a prazo em que não sabemos a data de validade à semelhança de toda uma imensidão de trabalhadores precários; um país “a recibos verdes”, refém de uma Europa autista e impositora, sedenta de cobrar os seus impostos, de impor a sua vontade, a sua agenda, sem olhar a meios; Portugal é hoje um país precário.
E o mais grave é a falta de cultura democrática. Do povo, dos eleitores mas, fundamentalmente, dos nossos políticos, melhor dizendo, os nossos partidos, não sabem governar.
Quando em maioria, agem de forma arrogante, prepotente, cedendo e ficando reféns de outros, que representando uma pequena minoria, assumem um protagonismo desmedido que o povo não reconhece;
Quando em minoria, o diálogo construtivo, o trabalho conjunto e com o propósito no bem comum, o desapego individual em nome da pátria e o espirito de missão, simplesmente, não existem no sistema partidário vigente. Reina a impunidade, a conflitualidade, os benefícios próprios, a magistratura de influências e de poderes que apenas favorecem alguns. Este não é o país, o Portugal que eu quero!
Eu sou político. Mas com orgulho digo que sou um político ativo, independente e, sobretudo, incluo-me e trabalho com um enorme grupo de pessoas que olham para a sua comunidade, para o seu lugar, cidade, concelho ou país com o intuito de contribuírem, à sua medida, para um bem que nos une e identifica. Revejo-me nisso e ambiciono que, um dia, neste país à beira mar plantado, esta maneira de estar se imponha. Portugal precisa de entrega e competência. Não precisa de um sistema partidário que legisla em prol dos seus interesses, autofinanciando-se, protegendo-se da vontade livre e da imperiosa necessidade de uma liberdade que não seja fictícia ou moldada pelos arautos da comunicação.
Como conclusão deixo duas frases de dois homens muito diferenciados.
Thomas Jefferson, 3º Presidente Norte-americano, do Partido Democrático Republicano, no sec. XIX, disse: “Quando um homem assume uma função pública, deve considerar-se propriedade do público.”
O sempre genial Miguel Esteves Cardoso escreveu que “A guerra política já não é entre a direita e a esquerda – é entre individualistas e colectivistas. Em entre quem pensa primeiro em si próprio e quem pensa primeiro nos outros.”
Em resumo, e não sei porquê, identifico-me muito com estes senhores apesar dos quase 3 seculos de distância.
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