
Nasci em 1970. Pouco convivi com o antigo regime e não tenho as experiências que conheci porque os meus pais e avós comigo partilharam. Tinha 4 anos quando aconteceu Abril e, com ele, a esperança de um país, livre, democrático e livre da censura, da repressão, da perseguição. Ainda assisti a muitas rusgas e vi o meu pai ir na “ramona” porque não tinha identificação com ele na altura em que a revolução ainda estava quente. Portugal estava em convulsão e tentava ajustar-se à nova realidade. Veio o 25 de Novembro, a nova constituição em 1976 e a partir daí a construção, que se queria sólida, de um país livre das amarras da ditadura. Nas escolas cantava-se “A Gaivota” e aprendia-se o que era a liberdade. Cresci a acreditar que vivia numa democracia livre onde o povo era quem mais ordenava e admirava o Bochechas no meio de alguma inocência política da juventude. Veio a faculdade e a Associação de Estudantes e com ela muitas outras lições, importantes, e a primeira percepção de que, se calhar, Abril ainda estava por cumprir, que a liberdade nem sempre era real e que, nesta democracia, quem mais ordenava nem sempre era o povo.
E essa primeira percepção confirmou-se e agravou-se com o que ia assistindo à medida que fui crescendo e percebi que quem mais ordena é sim um polvo. Um polvo que estendeu tentáculos na banca, na economia, na política, um pouco por todo o lado e que esse polvo se alimentava do povo e da inocência de muitos que, como eu, julgaram que Abril tinha devolvido o poder às ruas, a todos nós. Puro engano. Nisto a que chamam democracia ainda há censura de programas na televisão, “saneamento” de jornalistas, controlo de órgãos de comunicação social, Lobyismo, corrupção, perseguição e repressão a nível nacional e, mais grave ainda, em muitos locais por esse país fora.
Não. Não cumprimos Abril e aquilo que celebraremos no próximo dia 25 de Abril é um ideal e não a realidade, são os valores e princípios que muitos dizem defender mas que não praticam, antes pelo contrário, e que se agudizou nos difíceis dias que correm.
Os cravos de Abril eram genuínos, naturais, sinceros, viçosos e bem cheirosos mas foram trocados por cravos disfarçados, feitos de plástico, baços, murchos e falsos que imitam os verdadeiros mas não o são.
A principal questão não é celebrar Abril na casa da democracia. Abril deve ser celebrado aí e em todo o lado, mas, sobretudo, praticado nas acções e não só nos discursos. A principal questão é que muitos dos que ufanamente põem cravos na lapela, dão vivas a Abril e gritam Liberdade são os mesmos que lidam mal com a verdade, com a oposição, com a opinião, quando estes não servem os seus interesses e lhes retiram os argumentos e rebatem a demagogia e a realidade alternativa que tentam criar. E aí, de forma cobarde, dissimulada, exercem o poder que o povo lhes deu mas onde quem mais ordena é o polvo e usam as suas influências, praticam a repressão, a censura e as tentativas de silenciamento de todos os que, crentes nos valores de Abril, julgam viver em liberdade e em democracia. E são tantos, até nas redes sociais, que se dizem democratas, que defendem a liberdade de expressão mas depois bloqueiam, censuram, espiam, usam perfis falsos, falam na sombra de mensagens privadas, ameaçam, perseguem, achincalham em vez de debater, apresentar argumentos, achando que a verdade só a eles pertence e que os “outros” são os maus. Tiques salazarentos de quem se exibe de cravo bafiento e fingido ao peito, celebra num dia os valores de Abril e, nos restantes dias utilizam disfarçadamente as melhores ferramentas que se pensavam ter ficado no passado. É a Democrisia no seu esplendor!
Não. Não é uma cerimónia no parlamento que nos ensina o que deveria ser o 25 de Abril.
Não. Não são os discursos de bonitas palavras que nos transmitem os valores e os princípios do 25 de Abril.
É a postura, a atitude e as ações de todos os dias. É Ser exemplo e não mostrar o exemplo. É exercer a liberdade, respeitar a liberdade e combater quem não faz.
Eu celebro, e agradeço, todos os dias Abril e todos aqueles que verdadeiramente lutaram para que a gaivota voasse com asas de vento e coração de mar e acredito, talvez utopicamente, que se educarmos os nossos filhos pelo exemplo e continuarmos a lutar, um dia Abril se vai cumprir em pleno e que poderemos verdadeiramente dizer, somos livres, somos livres.
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