
Tenho vontade de um mundo que não é este
Amanhã é só mais um dia. Muda-se o ano, renovam-se esperanças, celebram-se memórias, repetem-se votos e cumprem-se rituais formulando desejos novos ou antigas aspirações.
Ressoa forte o trovejar artificial dos fogos, inclinam-se os olhares contemplando configurações fantásticas e radiosas que se reflectem e iluminam nas pupilas de cada os sonhos que acalentam.
Doze badaladas, doze passas, promessas, superstições… vontade! Vontade de um mundo que não foi, que não é este!
Cai a folha do calendário ecom ela muda o dia, o ano, mas o mundo continua a ser este, onde o tempo marca, cadenciado e inapelável, o percurso do mundo, deste mundo que os rituais dizem termos vontade que mude para melhor.
O tempo faz-nos isto. Ter vontade de um mundo que não é este.
O mundo do tempo onde o sorriso feliz corre a velocidades vertiginosas e o choro se cristaliza, onde quem amamos vive perpétuamente em nós mas apenas num fogacho junto a nós, onde o sempre é um instante e o efémero pode ser eterno.
Tenho vontade de um mundo que não é este.
Onde possamos controlar esse ditador temporal e democratizar os instantes, os momentos. Escolher que a felicidade perdure, que a tristeza se torne ínfima, quase indolor. Optar por permanecer junto a quem nos faz bem e passar como o vento por quem apenas nos ensina que a maldade existe.
Tenho vontade de um mundo que não é este
Onde possamos moldar o tempo, solidificar a volátil matéria dos sonhos, abraçar quem não passa de uma grata memória, tocar os anseios mais intangíveis e gravar na pele o que faz a alma feliz.
Tenho vontade de um mundo que não é este.
Onde a balança da justiça não oscile e honre o mérito, onde se vejam nos rostos os corações e nas acções o carácter, onde a reciprocidade seja lei e a amizade nada mais do que frontal, honesta e sincera.
Porque hoje muda o ano, o mundo continua a ser este mas que, como dizia Chico Buarque, possamos um dia dizer que “o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz”.
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