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Não sou letrado, nem sábio de palavras. Sou um ser imediato, empírico, que tem nas suas feridas, nas marcadas cicatrizes, do corpo e da alma, a sua essência. Custam-me os filtros. Sejam eles prescritos pela sociedade, aculturados ou quaisquer cânones redigidos por um outro alguém. Importam, porque abomino reprimir aquilo que a vida moldou em mim, na razão de um existir primário, espiritual ou físico, material ou incorpóreo.

Escrevo sem pensar no devir, mas sempre impelido pelo presente e marcado pelo pretérito saber, que a reminiscência tangencial pode atraiçoar. É como se o sangue que, vertiginosamente, me percorre veias e artérias, saltasse descontrolado pela ponta dos dedos, transformando-se em letras arritmadas que arquitetam vocábulos disléxicos e, dificilmente, poderão ser compreendidos mas, decerto, e mesmo que atabalhoadamente, serão sentidos.

Freneticamente, o papel impregna-se de vontades e quereres, superiores ao raciocínio, ditados pelo toque arrepiante de ver vertido em frase aquilo que se revelou num sorriso, numa lágrima, naquele enigmático olhar que, tal como os parágrafos agora plasmados, apenas eu, talvez nós, interpretamos.

Não sou autor. Sou apenas um tradutor de emoções. Daquelas que nem eu alcanço, ditas num dialeto indecifrável, de trejeitos e sonoridades guturais que nos transportam, além do simples conhecimento, a uma dimensão onde vemos refletidas as reminiscências de um cosmos sabido mas apenas acolhido pelo ser.

Por isso escrevo. Viajo por entre virgulas curvas, retas exclamações e ziguezagueantes interrogações, até ao ponto final. Mas sempre carregado pelo poder das pulsantes reticências que, tendo no verbo pretérito o sujeito presente, deixam sempre desobstruído o vindoiro capítulo.

Componho hoje o que outrora não era e depois nunca serei!

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